RicardoFoganholo


15/06/2009


Bizarra Fauna Cotidiana: José Hernandez (in memorian)

Todo dia levantava de madrugada, tomava uma garrafa de café quente, um banho frio e ia pro ponto de ônibus; não apanhava o carro da primeira linha, aguardava o da segunda. Fazia isso pra me encontrar no ponto e jogar conversa fora, sobre o tempo, sobre o jogo de ontem, de anteontem, da semana passada, retrasada. Mas não era minha companhia que ele aguardava, mas de uma professora trinta anos mais nova, com quem sempre dividia um maço de cigarros e uma conversa sussurrada antes da chegada do coletivo. Entrava pela frente já xingando o motorista e o cobrador – reclamava de tudo e todos, tinha a boca mais suja que uma convenção de estivadores. Era figura digna de nota. Sempre contava a história de seu alcoolismo e de quando arranjava brigas homéricas nos botecos defronte a rodoviária – ele sempre saia ganhado, embora não tivesse mais que 1,40m. de altura. Baixinho ardido. Internou-se na Associação Hospitalar Thereza Perlatti mais de 35 vezes, todas para livrar-se do álcool – sem sucesso. Certa feita pediu uma pinga antes de ir pro trabalho; olhou pro copo diante de si, posto sobre o balcão do boteco. Pensou um pouco, virou-se e nunca mais voltou. Parou de beber ali, num átimo de segundo – sobraram-lhe as seqüelas: a tremedeira constante, a insônia crônica, a hipertensão. Foi desta última que morreu. Não fosse a bebida, teria morrido milionário – foi o melhor corretor de imóveis da cidade, há uns 40 anos. Nos anos que antecederam sua morte, vivia da aposentadoria minguada e de vender bilhetes de loteria. O ponto de ônibus nunca mais foi o mesmo.

Escrito por Ric às 19h22
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