

Quase lá - aquarela sobre canson.

Todo dia levantava de madrugada, tomava uma garrafa de café quente, um banho frio e ia pro ponto de ônibus; não apanhava o carro da primeira linha, aguardava o da segunda. Fazia isso pra me encontrar no ponto e jogar conversa fora, sobre o tempo, sobre o jogo de ontem, de anteontem, da semana passada, retrasada. Mas não era minha companhia que ele aguardava, mas de uma professora trinta anos mais nova, com quem sempre dividia um maço de cigarros e uma conversa sussurrada antes da chegada do coletivo. Entrava pela frente já xingando o motorista e o cobrador – reclamava de tudo e todos, tinha a boca mais suja que uma convenção de estivadores. Era figura digna de nota. Sempre contava a história de seu alcoolismo e de quando arranjava brigas homéricas nos botecos defronte a rodoviária – ele sempre saia ganhado, embora não tivesse mais que 1,40m. de altura. Baixinho ardido. Internou-se na Associação Hospitalar Thereza Perlatti mais de 35 vezes, todas para livrar-se do álcool – sem sucesso. Certa feita pediu uma pinga antes de ir pro trabalho; olhou pro copo diante de si, posto sobre o balcão do boteco. Pensou um pouco, virou-se e nunca mais voltou. Parou de beber ali, num átimo de segundo – sobraram-lhe as seqüelas: a tremedeira constante, a insônia crônica, a hipertensão. Foi desta última que morreu. Não fosse a bebida, teria morrido milionário – foi o melhor corretor de imóveis da cidade, há uns 40 anos. Nos anos que antecederam sua morte, vivia da aposentadoria minguada e de vender bilhetes de loteria. O ponto de ônibus nunca mais foi o mesmo.

Talvez por isso eu tenha ficado careca...?
Esta é minha derradeira semana antes das férias, o que, portanto, tem me feito trabalhar até mais tarde, impedindo que encontre um tempo livre para me dedicar aos desenhos. Isto atrasou um pouco as atualizações por aqui, coisa que eu eu pretendo corrigir a partir da semana que vem. Há muitas idéias surgindo e desejo ser pontual com elas o quanto antes. Obrigado aos visitantes de sempre. Abraços a todos.
Esta é a terceira versão para um mesmo desenho - a figura de um homem que se torna um pássaro carniceiro é recorrente nos meus desenhos e nas histórias que imagino e acabo por não registrar. Há diversas versões onde exploro o tema, onde este sujeito surge em diversas etapas da transformação em urubu.
Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 26 a 35 anos